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Na Arena da Vida: Lições de Coragem de uma Jovem Tenista

  • Foto do escritor: Priscila Z Vendramini Mezzena
    Priscila Z Vendramini Mezzena
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

Para minha menina, com muito amor


 A última sexta-feira foi um dia de muito aprendizado — para nossa filha Maria e para nós, seus pais.


Há alguns anos, ela tem aulas de tênis, mas nunca havia participado de um torneio. Surgiu uma oportunidade em nossa cidade, e decidimos que seria um bom momento para enfrentar um novo desafio. Fizemos sua inscrição na categoria B feminina — a única além da A. A título de comparação, no masculino foram definidas cinco categorias: especial, A, B, C e D.


 As chaves amadoras do tênis feminino costumam ser especialmente desafiadoras. Isso porque — pelo menos no Brasil — há bem menos tenistas mulheres em atividade. Muitas vezes, elas precisam se inscrever nas chaves masculinas, quando isso é permitido, ou acabam sem oportunidades de participação, já que alguns campeonatos nem sequer formam grupos femininos pela quantidade insuficiente de atletas interessadas. Assim, quando há um número mínimo de inscritas, as chaves acabam reunindo jogadoras com diferentes níveis técnicos, experiências e faixas etárias. Essa realidade também se observa no tênis profissional e nos esportes em geral. 


Para os pais, estreias como essa são momentos de grande expectativa e ansiedade. Pelo menos para mim, foi assim em todas as apresentações da Maria — seja em performances individuais de piano, seja em coletivas, como sapateado. Como praticante e entusiasta do tênis, sei bem da pressão psicológica que esse esporte impõe, especialmente em sua modalidade individual. A exposição é plena, sem reservas: o resultado depende exclusivamente do desempenho físico e mental do atleta.


Durante a semana, as chaves femininas do torneio foram finalmente divulgadas. Ao ver a adversária da Maria, minha primeira reação foi de preocupação — despertando de imediato meu instinto protetor: ela era mais velha, mais alta, mais forte e visivelmente mais experiente. Ficou claro que seria uma partida com chances praticamente nulas de vitória — ou até mesmo de conquista de um game. Compartilhei minhas inquietações com meu marido e com a professora da Maria, que ressaltou que, mesmo nas categorias masculinas, é comum haver grande disparidade entre os atletas. Concordamos, então, que a participação seria uma experiência muito rica — desde que as expectativas fossem alinhadas com a pequena e os objetivos bem definidos. O propósito era que ela vivenciasse o que é competir com alguém mais experiente, desconhecido, em um torneio — como um processo de aprendizado, sem qualquer obrigação de resultado. E, acima de tudo, que ela se divertisse em quadra.


Ao saber quem seria sua adversária, ela hesitou um pouco, dizendo que seria "massacrada", mas topou o desafio. Entrou em quadra com energia, movimentou-se bem, não se intimidou, não teve vergonha e não entregou o jogo — mesmo ciente das desigualdades em quadra. A outra atleta teve também uma postura positiva: orientou a Maria nos posicionamentos, nas regras do jogo, nas trocas de lado e, em alguns momentos, parecia até diminuir um pouco o ritmo para permitir mais trocas de bola — algumas, aliás, muito bonitas. A Maria teve a oportunidade de ganhar belos pontos.


Após dois sets, o resultado esperado se confirmou: a adversária venceu todos os games. Ainda assim, senti genuinamente que a Maria saiu vitoriosa da quadra — cansada, mas de forma alguma derrotada. Disse que gostou de jogar e se sentiu inspirada a evoluir no seu jogo. Comemoramos sua atitude e sua presença em quadra com muita alegria.


Esse episódio me fez lembrar do inspirador livro "A Coragem de Ser Imperfeito", de Brené Brown. Em um dos capítulos, ela fala sobre a criação de filhos plenos — que tenham coragem de ousar, lidar com a vergonha e a frustração, e exercitar a autoaceitação. Ela narra uma experiência emocionante de sua filha, que, na mesma idade da minha, foi convidada a competir nos 100 metros nado peito, mesmo sabendo que não era seu ponto forte (não contarei o desfecho para não dar spoiler). Brené e o marido a acompanharam e a apoiaram durante toda a experiência, que inicialmente despertou muita angústia. Uma frase desse capítulo é particularmente marcante:


"Se estivermos sempre seguindo nossos filhos na arena da vida, calando as críticas e assegurando sua vitória, eles nunca aprenderão por conta própria que têm a capacidade de viver com ousadia."


O capítulo termina com o belo Manifesto pela Criação de Filhos Plenos.


A experiência nesse torneio só reforçou que ganhar nem sempre significa conquistar o resultado visível de uma disputa. Muitas vezes, trata-se de uma batalha interna — desafiar nossas crenças, medos e vergonhas, e enfrentar situações em que nem sempre temos igualdade de condições. É ser autêntico, tirar o foco do julgamento alheio, livrar-se das comparações e exercitar o lema "Melhor Possível", tão significativo para os escoteiros. E isso vale genuinamente para qualquer dimensão da vida — pessoal ou profissional.


Que possamos ousar, sentir orgulho de nós mesmos e ter a coragem de nos apresentar nos diversos desafios que a vida propõe. Que os encaremos com mais leveza, autocompaixão e uma crença firme em nossas qualidades, bem como em nosso potencial de aprendizado e evolução. Que não nos deixemos intimidar por pressões — autoimpostas ou externas — como a busca da perfeição improvável.


Sinto imensa felicidade e orgulho da Maria, e sou grata por todos os ensinamentos que ela me deu nesse feito e por me ensinar todos os dias. Que essa experiência seja sempre um lembrete e um convite para nos lançarmos nas arenas da vida com o coração aberto e a mente livre de qualquer tipo de amarra.




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Priscila Z Vendramini Mezzena

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